logotipo-dormenenem

O atendimento a saúde da mulher e suas contradições

O Brasil ocupou, até há pouco, a nada invejável posição de campeão mundial de operações cesarianas.  Apesar de a cesárea ajudar a reduzir a mortalidade materna e perinatal o exagero de sua prática acaba tendo um efeito oposto, inclusive por consumir recursos preciosos do sistema de saúde.

 

saude_mulher

O parto é um evento natural e fisiológico que acontece, na maioria das vezes, sem qualquer intercorrência. A distorção existente na prática médica brasileira tem sua origem na forma como a sociedade em geral, e a medicina em particular, encara a mulher.

A medicina tem o poder para transformar eventos fisiológicos em doenças: a medicalização do corpo feminino – que "trata a gravidez e a menopausa como doença, transforma a menstruação em distúrbio crônico e o parto em um evento cirúrgico" – é uma das mais poderosas fontes da ideologia sexista da nossa cultura.

Desde que as mulheres do século XIX quiseram se afirmar formou-se um grupo de ginecologistas: a própria feminilidade transformou-se em sintoma de uma necessidade médica tratada por universitários, evidentemente de sexo masculino. Estar grávida, parir, aleitar são outras tantas condições medicalizáveis, como são a menopausa ou a presença de um útero que o especialista decide que é demais.

Apesar do exagero dessa afirmação - não se pode negar a contribuição da medicina, e da ginecologia e obstetrícia em particular, na melhoria das condições de saúde e de vida das mulheres -, muitas das distorções observadas, como, por exemplo, o excesso de cesáreas no Brasil, reflete exatamente essas inter-relações entre as questões de gênero e a prática médica.

É através da compreensão dessas inter-relações que se pode perceber porque o Brasil ainda apresenta indicadores inadmissíveis de mortalidade materna e mortalidade perinatal, muito além daquela esperada para seu nível de desenvolvimento e um exercício freqüentemente equivocado dos direitos reprodutivos por parte de suas cidadãs.

A reprodução afeta a mulher de uma forma que transcende as divisões de classe e permeia todas as suas atividades: sua educação, seu trabalho, seu envolvimento político e social, sua saúde, sua sexualidade, enfim, sua vida e seus sonhos. É necessário que se deixe de romantizar o poder que pode existir da conexão biológica da mulher com a Maternidade. É fundamental deixar de subestimar o poder repressivo sobre as mulheres que se estabelece com essa conexão. Pois essa visão "reprodutiva" das mulheres é muito menos o resultado de sua condição biológica e, acima de tudo, determinada pela organização social e cultural. E não se pode deixar de reconhecer que essa organização tem, até hoje, buscado cercear os esforços das mulheres para ganhar um pouco de espaço de controle sobre suas vidas e seus corpos e para expressar livremente sua sexualidade.

A mulher tornou-se dona de seu corpo e de seu destino. Os métodos contraceptivos, a partir dos anos 60, provocaram mudanças na vida das mulheres e favoreceram a vivência da sexualidade sem o ônus da gravidez indesejada.  Apesar desta conquista a mulher não ganhou ainda o direito ideológico da sociedade para vivenciar de forma plena a sua sexualidade. A mulher ainda é responsável exclusiva pela reprodução.

A desvinculação entre vida sexual e reprodução, em vez de proporcionar a liberdade feminina, está criando artimanhas que preservam tabus, deixando inalterado o modelo de imposição de alternativas à mulher.  Mulheres jovens e desinformadas estão cada vez mais realizando laqueaduras. É também assustador o número de abortos clandestinos no país que resultam em um número desconhecido, mas, seguramente não desprezível, de mortes.

Esses fatos revelam contradições na sociedade, que se reproduzem no sistema de saúde e, mais intensamente, no atendimento à saúde da mulher. Pensar sobre a mulher e sua saúde é pensar uma nova sociedade, em que o eixo central seja a qualidade de vida do ser humano desde o seu nascimento.

Fonte:

Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher/Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Área Técnicada Mulher. – Brasília: Ministério da Saúde, 2001.

Você também vai gostar de:


View the discussion thread. blog comments powered by Disqus
Português (Brasil)Español(Spanish Formal International)English (United Kingdom)

Busca Dorme Neném

Arquivo do Blog